Passar para a reserva

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 1978

Hoje vi de novo a Lina. O mesmo gesto de terça-feira.

Gostei de a ver. Não sei explicar porquê — não falámos, não estivemos juntos, foi só um gesto. Mas foi o suficiente para me mudar a disposição durante um bocado. Depois passou.

Fico a pensar que não me devo prender a recordações. As recordações do passado só servem para me torturar. A nossa separação deu-lhe toda a liberdade, e a mim também. Mas continuo preso, mesmo assim. Preso, mas sem esperança — o que é uma maneira diferente de estar preso, e talvez pior.

Pus de parte os projectos que tinha. Aqueles de me aproximar outra vez, de lhe fazer a corte, de tentar. Passei para a reserva. Não passo de um inválido em potencial.

Fui bom a estudar as mentes, fraco com os corações. É o que sou. Como tudo o que sobe desce, deixo o tempo encarregar-se do que vier. Já não tenho pressa, nem forças para a ter.

Hoje não sei o que hei-de fazer com o que sinto. Se calhar não é para fazer nada. Se calhar é só para sentir.


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