Uma revolta sem medida
Sábado, 7 de Janeiro de 1978
Devemos desdenhar da cobra porque não tem chifres?...
Pois é. Começo a perceber que até os meus pais me aborrecem. Revolto-me contra todos os que pretendem impor-se à minha vontade e qualquer palavra parece suficiente para me levar a uma revolta.
Talvez esteja a deixar que o aborrecimento dos últimos dias tome conta de mim. Tudo me incomoda, tudo me irrita, e a minha reacção é quase sempre a mesma, revoltar-me.
Mas há também outra coisa por baixo de tudo isto.
Hoje estava para ir ao cinema com o meu pai, mas arranjei a «tal» desculpa para poder estar com a Lina. Fiz aquilo que queria fazer porque, acima de tudo, queria estar com ela.
Na hora marcada, porém, a Lina não apareceu.
Fiquei uma hora à espera.
Foi demasiado.
Depois de ter escolhido estar ali em vez de cumprir o compromisso com o meu pai, acabar daquela maneira tornou a espera ainda mais difícil. Fiquei com a sensação de ter feito tudo para conseguir um encontro que afinal não aconteceu.
E é então que me pergunto se esta revolta que sinto não estará a crescer mais do que devia.
Hoje qualquer palavra me levou a reagir. Hoje até as coisas que normalmente talvez não tivessem importância conseguiram incomodar-me.
E, no meio disto tudo, continuo à espera da Lina.
... Não poderá ela vir a ser um dragão? (*)
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(*) "Don't despise the snake for having no horns... for who knows she might become a dragon" - Traduzido: Não despreze a serpente por não ter chifres... pois quem sabe se não se transforma num dragão? Esta é uma frase de uma série que dava na televisão na altura chamada "Os Jovens Heróis de Shaolin".
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