Uma surpresa

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Sexta-feira, 14 de Outubro de 1977

Hoje decidi fazer uma surpresa a quantos me detestam e desprezam.

Quando acabou o treino na Academia, em vez de seguir o caminho habitual, fui logo para Gondomar, mais propriamente para um ensaio. Era uma decisão tomada quase como uma provocação, mas havia outra razão, muito mais forte, que me levava até lá.

Quando cheguei, comi umas sandes que a minha mãe me tinha mandado. Imagino que, ao verem-me aparecer, alguns tenham ficado satisfeitos. Talvez pensassem que eu tinha ido por causa do ensaio, ou simplesmente porque era onde devia estar. Mas a verdade era outra, eu tinha ido por causa da Lina.

Cada vez sinto mais necessidade de estar perto dela e começo a perceber que certas coisas que faço já são, por si mesmas, provas do que sinto. Não preciso de o dizer sempre. Às vezes basta mudar um caminho, atravessar uma distância, aparecer onde não era esperado.

No regresso, falei-lhe novamente da fotografia que me tinha dado. Elogiei-a, sobretudo a pessoa que nela estava. A fotografia era bonita, mas o que me prendia não era apenas a imagem. Era ela. Era a rapariga que eu começava a sentir cada vez mais próxima de mim e que, ao mesmo tempo, continuava a despertar aquelas dúvidas que não conseguia afastar.

Vim embora aborrecido. Quando me ia despedir da Lina, o Manel intrometeu-se.

E uma coisa tão pequena foi suficiente para me estragar o regresso.


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