A profanação da alma

 

Quinta-feira, 22 de Junho de 1978

Despi-te, alma minha
Tropecei nos teus trapos
Sujos, amontoados, inertes
Apreciei a tua nudez
Obriguei-te
Aos mais vis actos hediondos
Tomei-te nos braços
E fiz amor contigo
Sobre a pedra da ara
Quebrei com o significado
Da palavra girote
Vadio
 
Não me importa
O que me chamas
Sem ti sinto prazeres sensuais
Mas que a tua imagem impede
Agora sou um vivo-morto
Não sei viver sem ti
Abdico da minha vida
Sou teu!

Este poema deixou-me um pouco estranho depois de o escrever. Há nele qualquer coisa de violento, mas também de muito íntimo. Parece que estou a falar com a minha própria alma, como se ela fosse outra pessoa.

Não sei muito bem o que quis dizer com tudo isto. Falo de a despir, de a sujar, de a possuir e depois acabo por dizer que não sei viver sem ela. É quase uma contradição.

Talvez seja isso que me interessa. Posso escrever coisas muito duras e, ao mesmo tempo, sentir que há qualquer coisa de que não consigo fugir.

A parte final é mais simples. «Agora sou um vivo-morto / Não sei viver sem ti». Quando escrevi isto, senti que era verdade. Há qualquer coisa que me prende, embora nem eu saiba exactamente a quê.

E depois escrevi apenas: «Sou teu!»

Talvez seja a frase que melhor explica todo o poema.



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