A voz do silêncio
Sexta-feira, 23 de Junho de 1978
Não te preocupes comigo
Faz de conta que não existo
Supõe que sou um reles insecto
Que voa em redor
Do teu corpo suado
Após teres feito amor
Num daqueles quartos
Em que nunca sabemos
Qual a cabeceira da cama
Ou o número de buracos
Por onde a dona destes “hotéis”
Espreita a impotência que a tortura
Desde que se sentiu envelhecer
Sob todos os aspectos
Supõe-me ignorante
Por ser pequeno
Sem importância
Que se iguala à tua
Eu sou esse insecto
Mas tenho a experiência do meu lado
Não te preocupes
Não falo
Sou pequeno
Este poema é bastante diferente dos outros. Sinto nele uma espécie de revolta, mas não é uma revolta que grite. É mais como se eu estivesse a dizer que não me importo, quando talvez me importe bastante.
A imagem do insecto é estranha, mas gosto dela. Um insecto é pequeno, quase ninguém repara nele. Pode andar por perto sem que ninguém lhe dê importância. Talvez seja isso que eu quis dizer de mim.
Também não sei bem quem é esse «tu» a quem falo. Talvez nem seja uma pessoa concreta. Às vezes escrevo assim porque é mais fácil dizer certas coisas quando não tenho de dizer exactamente a quem são dirigidas.
No fim digo «Não falo». E talvez seja essa a parte mais verdadeira. Posso escrever tudo isto, mas há coisas que continuo sem conseguir dizer.
Talvez o silêncio também seja uma maneira de falar.
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