A verdade que me liberta

Quinta-feira, 15 de Junho de 1978

Persisto na derrota, com um sabor amargo na garganta.

De que valem as minhas lamúrias? Chorarei baixinho, para que ninguém possa ouvir-me a sofrer. Talvez seja melhor assim. Há coisas que não vale a pena dizer a toda a gente.

Tenho no pensamento e no coração o passado, traiçoeiro e bendito, que tanta experiência me trouxe. Às vezes penso que preferia não ter passado por certas coisas. Outras vezes reconheço que, sem elas, talvez não tivesse aprendido nada.

Está em causa a consciência de cada um quando se avizinha o juízo derradeiro, que separará os bons dos maus, os verdadeiros dos falsos, mas...

Não sei sequer se é isso que quero dizer. Talvez esteja a complicar uma coisa que podia ser mais simples. O que sei é que cada um acaba por ter de responder por aquilo que fez.

Deixemo-nos de ilusões que nos tapam a visão da verdade e da natureza e façamos com que a verdade ferva a lume brando, sem se deixar extinguir.

A realidade que me arrasta para baixo é um passado que julgava esquecido e agora surge para me assombrar pelos meus erros do passado. As lágrimas derramadas pela dor estão cravadas como vidro quebrado no meu peito. Doem... mas eu mereço.

Talvez seja isso que procuro. Uma dor que não desapareça quando começam as dificuldades. Uma dor que continue lá, mesmo quando eu próprio tenho dúvidas que um dia passem.

Não sei se a encontrarei. Neste momento, nem sequer sei se tenho coragem para olhar para tudo de frente.

Mas talvez seja esse o primeiro passo.



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