A vida continua

 

Segunda-feira, 12 de Junho de 1978

A morte chegou quando menos se esperava
Com os seus passos de veludo e num olhar envolvente
Levou a vida cansada de um homem
Que já não era homem
Com a sua capa negra cobriu as estrelas
E o seu bafo gelado e mortal
Adormeceu esta natureza viva
Que esperava ver o dia de amanhã
Agora, num sono profundo, a natureza dorme
Envolvida em sonhos fantasmagóricos
Que se afiguram reais
A manhã surge com o Sol
Espreguiçando os seus braços
E a lua deita-se preguiçosa
Para dar lugar aos raios de Sol saltitantes
Nos cabelos das crianças
Na voz das crianças
E a vida continua.
Uma cruz,
Um corpo inerte num caixão
São os únicos, alheios a este despontar de vida.

Há qualquer coisa de estranho nesta ideia. Uma pessoa morre e, no entanto, no dia seguinte o Sol nasce na mesma, as crianças continuam a brincar e tudo parece continuar como antes.

Talvez seja isso que mais me impressiona na morte. Para quem parte, acaba tudo. Para os outros, a vida continua.

Não sei se gosto desta ideia. Parece um pouco injusta. Mas é assim que as coisas são.



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