Os passos de uma cigana sem destino

Segunda-feira, 26 de Junho de 1978

É costume uma cigana
Dirigir os seus passos sem destino
Não a censuro, a sua convicção convenceu-a
De que os seus passos não serão em vão
Breve estará o fim tão esperado
Não a censuro
Lamento a solidão dos seus passos
Quando outrora se faziam acompanhar
Por pés gentis e pequenos
Calçados, quais sapatinhos de cristal
Deslizavam como que a dançar
 
Qual pluminha ao sabor do vento
Os meus olhos choram lágrimas de dor
Que rolam em silêncio
Pela face abaixo até ao chão
Caindo num baque surdo
Sobre o pó que o cobre
Mas os pezinhos singelos
Não mais os ouvirá junto dos seus

Fiquei a pensar nesta cigana depois de escrever o poema. Não sei bem quem ela é, mas a imagem dos seus passos sozinhos ficou-me na cabeça.

Há qualquer coisa de triste em alguém continuar a andar sem saber muito bem para onde vai, mas acreditar que os passos não serão em vão. Talvez seja isso que me chamou a atenção nela.

Depois aparecem os pezinhos que antes a acompanhavam e que agora já não estão. É essa parte que me custa mais. Uma pessoa pode habituar-se à presença de alguém e, de repente, ficar só com o silêncio e com as recordações.

Também não sei porque escrevi que os meus olhos choram lágrimas de dor. Talvez porque, ao escrever sobre a cigana, tenha acabado por pôr qualquer coisa minha no poema.

Às vezes é mais fácil falar de alguém que não sou eu.

Mas talvez seja precisamente aí que a poesia me trai. Penso que estou a inventar uma história e, quando dou por mim, já estou a falar de coisas que sinto.



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